- ESCAPE
- Nov 4, 2019
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Updated: Nov 21, 2019
Determinação: uma vida dedicada à moda
O jovem designer Tavares é inquieto e um criador nato. Suas obras, repletas de amor e persistência, demonstram paixão pelo ofício e preenchem o ser de quem as veste

Guilherme Lucas
Mãos rápidas, corte a olho nu e domínio de todas as máquinas de costura. É assim que define-se o ofício de Anderson Tavares, 21, ou apenas Tavares, como gosta de ser chamado. A veia artística do jovem estilista foi notada e sendo desenvolvida logo cedo, quando tinha 12 anos, trabalhando com produção industrial, junto da sua irmã mais velha Josiene.
A costura sempre esteve presente na família de Tavares. Seu tio-avó era alfaiate, incitando assim o desejo de artesão em outros familiares. Seu avô seguiu os mesmos passos, envolvido na alfaiataria; sua avó, Crélia tornou-se passadeira, sua irmã Josiene, retista – pessoa que manuseia a máquina reta -, e seu tio, Ricardo Messias, costureiro de fábrica. “A costura entrou na vida da minha família antes da moda com o objetivo de ampliar perspectivas e trazer uma nova fonte de renda”, declara Anderson.

O rapaz cresceu em Itaquaquecetuba, uma cidade pacata no extremo leste de São Paulo. Anderson confessa que não gostou muito de trabalhar com sua irmã Josi... Iniciou os trabalhos por pressão da mãe, Célia, que dizia que o filho gastava demais e precisava ajudar de alguma forma. Tavares não gostou muito de trabalhar com a irmã, mas compreendeu a visão da mãe, já que sempre almejou um ganho de capital mais alto e sua própria independência, sem fazer corpo mole. “A oficina da minha irmã era dentro da casa dela, que era um cubículo e contava apenas com duas máquinas. O humor instável dela também acabava me afetando. Criei afinidade com a máquina overlock e não aguentei dar uma longa continuidade aos trabalhos, fiquei com ela por apenas 3 meses”, conta o costureiro.
Quando finalizou os trabalhos com Josiene, Anderson foi à oficina de seu tio Ricardo demandar alguns trabalhos e foi aí que obteve experiência em chão de fábrica. Na escola, Anderson revela que era respeitado por trabalhar tão jovem: “Era cansativo, mas ter preocupações além da vida escolar me ajudou a construir quem eu sou e não me importar muito com opiniões adversas. Sempre tive gosto e paixão por vestimentas. Adorava usar roupas de marcas, desenhar animações em papéis para brincar, como Cavalo de Fogo e Thundercats, que guardo até hoje. Também produzia bolsas de EVA. Como não tinha dinheiro para comprar e não possuía nenhuma máquina de costura em casa, as costurava à mão e tinha muita paixão em usá-las para ir à escola.

Ricardo Messias, seu tio, era um homem conservador, rígido e autoritário. Anderson não tinha uma relação próxima a ele, porém, mais uma vez, foi pedir trabalho por pura necessidade. “Meu tio perguntou o que eu sabia fazer, respondi que tinha conhecimento na overlock e gostaria muito de trabalhar em sua confecção”, declara o jovem.
Confecção é um lugar que consiste na produção, desenvolvimento e finalização de peças. Toda sua experiência com criação de bolsas e desenhos de papeis somaram em sua capacidade de noção e conhecimento da ergonomia do corpo humano. Anderson adquiriu o trabalho, com função de overlockista. Ele conta que a vida na empresa era uma loucura: “Meu tio era ou vai ou racha. Ele gostava de ouvir rock na fábrica, era duro, me xingava e fazia aprender na marra. O trabalho árduo tinha tudo para me desestimular, mas não foi o que ocorreu. Me trouxe experiências importantes que me ensinaram a lidar bem sob pressão”.
Com o passar do tempo Tavares foi adquirindo novas funções. Criou habilidades com a interlock, travete, galoneira, reta de duas agulhas, caseadeira, e outras máquinas de costura. Na confecção, o pessoal desenvolvia uniformes profissionais de seguranças, médicos, garis e outros. Trabalhar com seu tio era uma montanha-russa, o costureiro se sentia insatisfeito com a vida “quadrada” das produções, sem a possibilidade de criação e inovação. Além disso, Anderson conta que as discussões eram frequentes e depois de um determinado tempo, não começou a deixar mais barato: “Comcei a bater de frente com meu tio... ele vinha com umas brincadeiras ofensivas para dentro do local de trabalho e deixava misturar demais o pessoal com o profissional. Achava que pelo simples fato de sermos da mesma família sua autoridade por mim era maior”.
“Pedi demissão quando estava acabando o ensino médio, com 16 anos, e concentrei minha energia em me dedicar ao ensino superior”, afirma Anderson. O jovem estudou na Anhembi Morumbi e depois, por conta dos valores da mensalidade, mudou para a FMU. No período desta segunda faculdade, Anderson revela que foi despertado um desejo de repensar sua forma de consumo, inciando o desenvolvimento de peças exclusivas para si. “A primeira peça que produzi para mim foi uma calça de alfaiataria, depois parti para blusinhas e outras vestimentas simples, de bons cortes e rápidas. Queria ficar bonito com roupas exclusivas. Pintava a unha, abusava do preto, usava hot pants e tinha um estilo meio gótico masoquista”, conta o estilista.

Anderson percebeu que suas criações não era bem de um estilista, e sim, de um designer de moda. Termo atualizado que leva em consideração a funcionalidade e formas de consumo das peças. Tavares recebeu uma ligação informando que havia ganhado uma bolsa de desconto para seu retorno à Anhembi, havendo de voltar para o primeiro semestre da graduação. Retomou os estudos na antiga faculdade e conheceu Ágatha Lodos, 21, a qual desenvolveu uma grande relação de amizade e companheirismo. Os dois tinham pensamentos confluentes, concretizaram a amizade e compartilhavam ideias de construção de uma marca autoral. Àgatha tatuava, sua mãe era ex-modelo e seu pai um dos melhores tatuadores do Brasil. “Nossa relação se deu no interesse mútuo um no outro, depois foi se desdobrando de forma mais sentimental e cheia de empatia”, aponta Tavares.
A mãe de Àgatha possuía uma clínica de estética com espaços vagos disponíveis, localizada no bairro do Tatuapé, Zona Leste de São Paulo. Tavares tinha duas máquinas de costura, uma reta e uma overlock, e topou a ideia sem nem pestanejar.
“Sempre quis minhas próprias máquinas de costuras. Tenho um enorme cuidado com elas. Não gostava de depender dos ambientes da faculdade para criação. Fui com minha mãe numa loja de máquinas industriais na Luz, extremamente empolgado e escolhi máquinas que me possibilitariam confecções totais de peças”, conta Tavares, cheio de empolgação.
Anderson levou suas máquinas para a clínica no Tatuapé e praticava costuras conciliando com sua vida universitária e seu mais novo trabalho como atendente de telemarketing. A vida como telemarketing, de fato, segundo ele, não trazia satisfação pessoal. O designer de moda pediu demissão e dedicou seu tempo por completo à criação e costura.
A relação dos dois amigos foi de extrema importância para o comportamento e estilo de vida de Tavares, a mãe de Àgatha, Mara, foi quem apresentou as passarelas do São Paulo Fashion Week para Anderson, estimulando sua visão de moda.
O designer e a tatuadora perceberam que a faculdade não estava agregando muito em suas vidas, com despesas de mensalidade pesando. Em uma decisão conjunta, os dois resolveram abandonar a graduação e focar em cursos profissionalizantes do SENAI. Anderson concluiu o curso de moulage, que envolve aspectos tridimensionais da modelagem e Àgatha o curso de costura. No SENAI, Anderson conheceu Carol Landim, 34, ex-modelista da Neon e criadora da marca de roupas oversized, SUWIA.
Após o curso profissionalizante, Anderson passou a pegar trabalhos freelancer de costura básica. O designer de moda conta que este período trouxe novas elucidações sobre seu futuro: “Foi aí que comecei a desenvolver meus contatos e obter meus próprios clientes. Fui me distanciando do desejo da marca autoral e curtindo a autonomia e liberdade que o trabalho de freelancer me possibilitava”.
Anderson virava noites na clínica do Tatuapé e isso, de alguma forma, acabou gerando indisposições com a mãe de Àgatha. Com o clima meio problemático, a marca autoral dos amigos não conseguiu sair do campo das ideias.
Em contrapartida, a relação com Carol Landim foi conquistando novos patamares. Os dois miravam bastante o capital e o valor de boas conexões. “Carol tem uma vasta experiência no mercado de moda, estava pensando em abrir seu próprio ateliê e viu em mim a possibilidade de uma parceria”, diz Tavares. “Carol é inteligente, comprometida, focada, humilde, carismática e compreensiva”, conta o jovem. Segundo ele, a relação dos dois sempre foi muito divertida e sincera, desde a sala de aula, no curso profissionalizante: “brincava gritando o nome dela ao chegar na classe, a chamando de ‘Karoraine’ e batendo palmas".
Carol levava alguns serviços para Anderson na clínica e em uma dessas idas, disse que estava abrindo seu próprio o ateliê e o convidou para dividir as despesas e trabalharem juntos. Devido as discórdias que estava passando com a família de Àgatha, Tavares resolveu partir para novos rumos profissionais.

A modelista e o designer de moda se mudaram para o centro da cidade e possuem um ateliê no 28º andar do Edíficio Mirante do Vale, o prédio comercial mais alto de São Paulo, com vista para a ponte da Santa Efígenia e outros prédios da selva de pedra. No mais recente espaço de trabalho, Anderson vem desenvolvendo trabalhos para marcas como Budweiser, criando camisas para o festival Lollapalooza, projetando peças streetwear para a marca Poison e Cemfreio, sendo esta última uma das colaboradoras do evento de moda Casa de Criadores e produzindo artistas do cenário LGBTQIAP+, como Linn da Quebrada e Joup do Bairro, em produções que aderem uma vertente mais elegante e visual do streetwear.
Tavares é uma pessoa sonhadora, exigente e aventureiro. Apesar da pouca idade, suas experiências aprofundam em seu ser resultando em indagações e ambições que o move. De acordo com ele, a costura é uma forma de construção complementar da alma e sente um imenso prazer em ver outras peças usando suas peças. O jovem designer vem criando um imenso afeto por composições de alfaiataria, de roupas, sob medidas e vem cada vez mais movimentando suas criações para esta vertente do estilo. Tavares não gosta de se rotular e viver dentro de uma caixinha. Ele é transgressor e um artesão de dom nato, que se esforça para um constante desenvolvimento e uma trajetória honrosa, de dedicação e reconhecimento.
O artista sabe que em algum momento terá de criar sua própria marca para a constituição do legado que almeja ter, mas por hora, sabe que é preciso lidar cada vez mais com o público em diversos âmbitos: “creio que minha marca se consolidará de forma natural. Minhas experiências vêm me trazendo importantes vivências de negociações e abrindo meu leque de concepções. Sinto que, no meu atual momento de vida, preciso expandir meus contatos para aí, sim, adentrar comigo mesmo num projeto autoral”.



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