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  • ESCAPE
  • Nov 4, 2019
  • 5 min read

Updated: Nov 21, 2019


Figurino artístico: a trajetória de Erika produzindo para teatros


Com prazer pelo criar, a designer de moda se encontrou no mundo dos figurinos


Guilherme Lucas


Com uma bagagem voltada ao cenário artístico, Erika Grizendi, de 32 anos, é formada em moda pela UNESP, é figurinista e já passou por áreas como a de produção têxtil a fim de entender os processos da indústria e o mercado de consumo de moda.



Acima, a figurinista em seu cantinho de relaxar em Campinas (SP)


A moça cresceu em Americana, viveu em Campinas e possui familiares mineiros. Em Minas, mais especificamente em Juíz de Fora, onde passava grandes temporadas de sua infância, Erika relembra momentos nos quais a família se reunia para confecções artísticas. É a moda unificando. "Era aquela família gigante... nesses encontros, sempre tinha alguém que chegava com uma sacola cheia de botões e linhas para bordar, fazer crochê, tricô e acessórios", conta ela. Além disso, a moça revela que em sua criação, seus pais foram grandes incentivadores das artes, não priorizando somente o vestuário: "aos finais de semana, meus pais revezavam os dias e despertavam eu e minha irmã mais nova com músicas. Normalmente, aos sábados minha mãe colocava óperas e aos domingos meu pai comandava os clássicos do rock".


Com o lado artístico aflorado, não foi fácil para Grizendi decidir qual seria seu curso de formação. Com um vasto leque de opções, a figurinista prestou artes cênicas, artes plásticas e até mesmo dança. A graduação em moda surgiu como uma sugestão de sua mãe: "Você sempre fez isso. Você sempre pensou em roupas, em cartela cromática e em silhuetas", disse a mãe da designer. Então, no deslumbre da grade curricular e do que estaria em contato, Erika mergulhou no mundo da moda.


"O curso é baseado numa constante de destraves da mente. É lindo como conseguimos nos deparar com uma folha caída na rua e fazer o uso do conhecimento das misturas de cores para poder levar tal coloração para peças de aquisição, como uma boina, por exemplo", revela a designer de moda.



Acima, Erika Grizendi, sempre com um sorriso no rosto


Sair desse ideal e cair no mercado não foi tão simples. Com passagens em indústrias e áreas que envolvem tecnologia têxtil, a moça pôde perceber que o campo da moda é mais voltado para o consumo do que para processos criativos. Tais análises trouxeram questionamentos sobre o local que deveria dedicar seus esforços: "Estava atrás daquele debruçar em livros, em pesquisas, e não no trabalho baseado em referências e tendências. Queria colocar a mão na massa também".


Erika então resgatou o apreço que sua mãe tinha pelos discos de ópera e juntou com suas afeições pela dança, história e artes plásticas. O resultado foi o teatro. Na época, o Instituto de Artes da UNESP estava realizando algumas montagens de óperas e a designer trabalhou com eles por um ano. Quando saiu dali, já se viu emendada com o Theatro Municipal.


"Trabalhar com o Municipal foi um sonho realizado. Estar ali dentro, na produção, foi bem enriquecedor e repleto de entendimentos", aponta Grizendi. Segundo ela, o Theatro Municipal possui três grandes galpões, próximos a Marginal: o primeiro tem três andares e conta com todo o acervo desses 100 anos de produções. Lá existe uma cozinha para realização de tingimentos e o lugar é todo climatizado, com tudo catalogado e etiquetado. O segundo galpão é o de confecção, onde se concentra os costureiros e modelistas. Já o terceiro e o último é o de cenografia. Para Erika, poder transitar entre esses espaços foi uma experiência única. Ela revela ter passado tardes incríveis com a equipe participando das confecções e cantando: "desenvolvíamos bastante a parte de produção, que era encontrar tecidos, encontrar quem bordar, realizar convites, fazer modelagens, recortes, costuras. As tardes ali eram bem animadas e juntos formávamos uma grande banda, cantando juntos todas as músicas da rádio que sempre se mantinha ligada", relembra, realizada.



Foto artística do projeto na qual é membro, Teatro da Neura


Mais uma vez Erika sentiu necessidade de migrar: "Pelo menos no período em que estive ali, o Municipal tinha um esquema de trabalho que era de trazer profissionais. O maestro era convidado, o figurinista era convidado. Muitos de outros países como Itália, Alemanha. A parte criativa, geralmente, vinha através de briefings com a proposta do figurino terceirizada". A figurinista sentia falta do criar.


Este criar foi encontrado trabalhando com montagens teatrais. Erika faz parte de um projeto chamado Teatro da Neura e está sempre presente nas salas de ensaios. Suas produções de figurinos necessitam do direcionamento dos atores e para ela, é muito importante ter um relacionamento próximo do elenco, compreendendo ergonomias. "Sou mãe, gosto de saber se tal peça está confortável e como ela reflete com o movimento dos corpos", diz.


O vestuário na construção de narrativas preenche a profissional. Para Grizendi, é muito importante ter atenção em como a roupa comunica. Dentro das salas de ensaio, a figurinista gosta de realizar com os atores algo que chama de gênese: "A gênese é uma espécie de terapia que faço com o elenco. É quando pensamos e contamos além do que o texto traz". Para Erika, o personagem precisa passar por escolhas para estar vestindo aquilo. "São nesses momentos que desenvolvemos qual a cor predileta do personagem, qual sua relação com a família, o que ele escuta, o que gosta de comer. O figurino não pode surgir como um corpo estranho. Ele precisa estar alinhado com todo o espaço cênico. Essas compreensões vão revelando mais e mais da persona que está sendo representada", conta.


Para a profissional, um dos processos mais divertidos e importantes da produção de figurinos é o de envelhecimento. De acordo com ela, é nesta etapa que se é estabelecido as características do fluido, do sujo e do ofício, para que assim a roupa não adquira o aspecto de ter saído do cabide de uma loja, mas sim, de um armário.



Erika clicada espontaneamente em Minas Gerais


Levando em consideração os baixos orçamentos e os diversos cortes que o teatro recebe, os figurinos de Grizendi possuem mentalidades conscientes. Preocupada com o reaproveitamento, as ressignificâncias e as reconstruções, a designer tenta ao máximo se utilizar de meios sustentáveis para suas confecções. "Os tecidos ecológicos, muitas vezes, são caros para a verba do teatro, porém, tenho em meu repertório processos de tingimentos mais acessíveis e saudáveis ao meio ambiente. Peço para o pessoal guardar o caroço do abacate e vou a feira pegar cascas de cebolas, por exemplo", conta a moça.


Com uma linguagem artística afinada, pensada em ergonomia, humanização e sustentabilidade, as experiências de Erika a levaram para uma posição de defesa da plena liberdade criativa. Seu ingresso no mundo dos figurinos com o objetivo de criar foi certeiro. É neste local que a moça passa a maior parte de seu tempo e o que acalenta sua alma na busca pela invenção. Sorridente, leve e de espírito aventureiro, a figurinista revela ainda ter vontade de se aprofundar no mudo da cenografia. Sempre migrando, seja em aspectos pessoais ou profissionais, a figurinista vive uma vida constante de novos propósitos e reinvenções.


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