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  • ESCAPE
  • Nov 4, 2019
  • 5 min read

Updated: Nov 21, 2019

Originalidade: a reinterpretação da vida nos mares


A designer têxtil Vanessa Barragão promove a importância da conscientização e reflexão da vida marinha com suas tapeçarias orgânicas



Vanessa em frente a uma obra de sua autoria


Guilherme Lucas


Albufeira, que tem sua etimologia provinda de árabes (Albuhera), que significa pelo mar, é uma pacata cidade de Portugal com o oceano como um de seus principais elementos. Movimentada pelo turismo, a figura do mar é presente em seus habitantes e símbolo de ofício para artistas como Vanessa Barragão, 28: “Para mim, o oceano é um lugar cheio de inspiração, e o meu trabalho é completamente inspirado não só por todos os diferentes e imensos ambientes que lá existem, como também pela vida nele existente”.


Quando criança, era frequente Vanessa observar sua avó costurar. Curiosa, a jovem possuía o hábito de pegar as sobras dos tecidos e criar novas roupas para suas bonecas. A moda então surgiu na vida de Vanessa. Unindo a criatividade com o protecionismo ao meio ambiente, foi na universidade de design de moda que a artista realmente tomou consentimento de como o método de produção da indústria não condiz com seu estilo de vida, direcionando então seu trabalho para outras extensões. “Todos os métodos de produção e metodologias de criação eram o oposto do que eu realmente gostava de fazer na minha vida. Então, decidi explorar mais sobre têxteis e começar a criar o meu próprio trabalho, fazendo exatamente o que me faz feliz”, revela Barragão.



Vanessa produzindo uma de suas peças para exposição


As criações têxteis de Vanessa são altamente sensoriais, mesclam diversas técnicas e são capazes de levar seu espectador e consumidor para novos ambientes, abrindo espaço para o debate da preservação da vida marinha e outras questões. Segundo a artista, o objetivo do seu trabalho é conscientizar as pessoas sobre os problemas e consequências causados pela poluição e pelo aquecimento global. Para mostrar essa problemática, ela se inspira visualmente em um dos ambientes mais vitais e mais presente em sua trajetória de vida e memória: os recifes de corais atualmente ameaçados. Vanessa conta que esses organismos naturais vivos e complexos são o coração de um habitat imenso, cheio de espécies marinhas que dependem umas das outras para sobreviver e, sem esse grande pilar, outras espécies podem se aproximar da extinção, o que acabará afetando não só a vida marinha, como também a de todo o planeta.



Acima, a artista é fotografada com suas lãs, instrumentos de trabalho


As obras de Vanessa guardam técnicas ancestrais como a feltragem, o tricô, o macramê, o crochê e a tecelagem, que chegaram a seu conhecimento e aprendizado através de sua família. A equipe da artista é formada por cinco pessoas: sua mãe, avós, avô e irmã. Enquanto sua mãe e suas avós auxiliam na parte do crochê, seu avô ajuda nas dobraduras das lãs. A irmã é a responsável por toda a parte eletrônica como e-mails, site, comentários, encomendas e gestão. De acordo com a designer, o trabalho se dá pela prevalência da confiança e apoio incondicional uns nos outros. Dessa forma, a artista revela que consegue ser mais aberta, honesta e direta com eles, desenvolvendo um belo trabalho em grupo e os fazendo compreender inteiramente sua visão acerca de algo.


Além de seus projetos pessoais, Vanessa trabalha dois dias da semana como designer têxtil de uma fábrica de tapetes chamada Beiriz. A fábrica é a mais antiga no nicho de tapeçaria artesanal em Portugal, e a artista se sente orgulhosa em ver como a empresa vem adotando uma personalidade cada vez mais eco-friendly: “Penso que essa adaptação e o meu trabalho surgiram como uma relação quase simbiótica. Por um lado, o desperdício deles não vai para o lixo, e por outro, eu consigo ter material para criar os meus trabalhos. De certa forma, estabelecemos uma parceria onde ajudamos um ao outro”, revela Barragão.


Tais posturas fazem Vanessa se sentir leve e satisfeita, com a certeza e a consciência de estar a fazer o que é certo, ajudando a si mesma, o próximo e o mundo. Suas obras adquirem um caráter de força, que permeiam seu interior como motivação para sempre continuar progredindo e se desenvolvendo.


Living Coral é uma representação da realidade dos recifes de coral. Por meio de “uma pintura realista do fundo do mar”, a peça aborda a importância da produção de oxigênio pelos plânctons, o despertar para a compreensão da reutilização de materiais e o respeito pelo meio ambiente através da transformação. Apresentado em Taiwan, a artista oferece mais detalhes sobre a exibição: “Representar isto em Taiwan, foi o correto. Era o que devia ser feito e o que era natural. Primeiro, porque a peça foi feita de propósito para esta exposição e segundo, porque Taiwan é um dos locais no mundo onde existe e é visível esse fenómeno do plâncton. Isto porque, tal como representado na peça em tons de azuis claros - como se fosse um rio -, este fenómeno é visível nas águas como um efeito efervescente. Para além disso, tive a sorte de poder contemplar o país em si. A vegetação, o clima, a natureza e a vida que lá existe conjugam com o intuito da peça e com a representação da mesma”, declara a designer.



Vanessa (esq) e sua irmã (dir) sendo clicadas de forma descontraída

Vanessa não conhecia Taiwan e conta ter tido sorte em poder trabalhar com um nome que respeita, o OneFifteen, uma renomada loja-conceito localizada em Tapei. A loja dedica-se em entregar o conceito de “wonderful life”, ou “vida maravilhosa”, em português, e se tornou palco para a exposição da artista. “Tenho apenas a agradecer a eles por tudo o que fizeram por mim e pela minha manager que me acompanhou por esta viagem e oportunidade. Agradeço especialmente à Tiffany Wang e à Daisy Lee por todo o carinho e pelos braços abertos. Eles foram só uma prova de todo o resto que conheci e contemplei lá: um povo muito bom, generoso, de braços abertos, interessados no que lhes rodeia e no desconhecido”, diz Barragão.


Coral Garden foi uma instalação produzida para a Domotex, a principal feira mundial de tapetes e revestimentos para pisos. A mostra focava no despertar orgânico e natural das mentes em um jardim de corais. “O fato de não ser somente uma peça na parede, mas sim, um espaço completo, um ambiente total onde as pessoas podiam caminhar, tocar, olhar ao redor e sentir o recinto proporcionava uma nova experiência”, afirma Vanessa. A exibição também contou com uma playlist que estimulava ainda mais o sensorial do público.


Os tapetes de Vanessa Barragão promovem uma mentalidade ecológica e fundamental para seu processo, sempre tentando mencionar e destacar perspectivas que incentivam a harmonia, a sintonia e o equilíbrio em prol do meio ambiente. A artista faz um incrível trabalho de repasse de técnicas ancestrais e mantém um lindo legado cultural, dando ênfase a importância da reutilização, reciclagem e a vida nos mares.

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