- ESCAPE
- Nov 4, 2019
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Updated: Nov 21, 2019
Observações que elucidam: as visões de Moha
Suas análises se transformam em sabedoria e suas experiências em aprendizado. O estilista José Moha é autodidata e não precisa de livros, mas sim, de convites para desfrutar da vida

Guilherme Lucas
José Favale Moha, 71, é morador do centro de São Paulo e possui uma vasta experiência no mundo da moda e negócios. Sem dúvidas, o homem possui uma trajetória intrigante e curiosa, passando por diversos cargos como curador, estilista, criador e empresário. José mora no 35º andar do prédio comercial mais alto de São Paulo e abre a porta de seu apartamento solicito, com um sorriso nos olhos, oferecendo a mão como cumprimento e convidando-me a entrar.
Moha, como é conhecido, veste um par de óculos de grau, boina cinzenta, calça de moletom e camiseta branca com um elefante estampado. Talvez a figura do mamífero impressa na vestimenta tenha ligação com a sabedoria, solidariedade e paz que o estilista transmite – ou simplesmente pelo fato de haver de puxar profundas memórias para o bate-papo que se iniciou logo ali na porta de sua casa. “Hoje vamos falar da vida”, solta Moha, com leveza na voz, apontando uma cadeira para sentar.

O apartamento do estilista, extremamente organizado, possui temática minimalista em tons de cinza – que traz aconchego a seriedade e agitação dos outros andares – e foi totalmente reformado para sua estadia. “Eu gosto de caminhar... gosto da proximidade que o centro oferece”, conta Moha. Um pequeno corredor que atravessa o banheiro te direciona a um loft adaptado para separar a cozinha do quarto. No canto direito, uma bancada se alonga por esses dois últimos espaços, servindo de apoio para o computador e a televisão de José Favale.
Com vista para o Vale do Anhangabaú, as janelas do apartamento também passaram por mudanças. “Tenho medo de altura. Como as janelas eram muito grandes, optei por diminui-las”, revela Moha. Ali, conversando sobre as reformas que a prefeitura vem fazendo no Vale, percebo que o elefante não era o único animal do cômodo. Em cima da cama, ao lado da janela, um quadro de tigre guarda o leito do estilista. Concluo, por hora, que talvez este simbolize a independência e liberdade do criador.
José Moha é uruguaio, sua mãe empregada doméstica e seu pai garçom. A boa criação, unida aos bons ensinamentos da escola pública sempre permitiu com que Moha frequentasse diferentes esferas sociais. “Morávamos no subúrbio, porém, antigamente, a Venezuela era tida como a Suíça da América Latina. Logo, soube aproveitar bem as minhas oportunidades. Sempre acreditei que para obter cultura é preciso ler. Agora, se você almeja sabedoria, é preciso observar”, conta Moha.

E foi justamente através da observação que a relação de Moha com a moda foi estabelecida. De acordo com o estilista, na época de sua infância, quando tinha 9 ou 10 anos, não era permitido com que meninos menores de 12 anos usassem calças compridas. Então, num ato de “burlar” as regras, o jovem já fazia intervenções em seu vestuário comprando pedaços de tecidos e levando em costureiras para alongarem suas peças. Conta ainda que, nos anos 60/ 70 era aficionado pela banda de rock americana The Beach Boys: “Era uma pena que em casa não tinha televisão... Adorava o grupo e lembro-me de assisti-los cantar na casa de amigos. A banda tinha visuais interessantes, que sempre me chamavam atenção. Comprava tecidos e fazia minhas próprias camisas inspiradas nas dos integrantes”.
Nostálgico, Moha me oferece um café para continuarmos a conversa. Aceito e enquanto a cafeteira prepara dois expressos com leite, o estilista dá detalhes sobre sua chegada ao Brasil: “Para lá dos meus 17 anos era frequente estados do sul do Brasil como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul prepararem excursões ao Uruguai. Os ônibus chegavam aos hotéis repletos de brasileiras e eu ficava enlouquecido. Queria muito conhece-las e foi a partir daí que comecei a ter mais e mais interesse pelo país“, diz Moha com um leve sorriso no rosto, lembrando de seus momentos como jovem galanteador.

Enquanto bebericamos o café, Moha revela que sempre foi o tipo de pessoa que aproveita o “agora”. “Eu sempre fui vivendo a vida... acreditando e vivendo o momento de agora. O para trás já se foi e o que temos é a realidade do presente”. Com essa mentalidade, acreditando firmemente em si mesmo, quando interrogado no Brasil sobre sua profissão, Moha confessa que não pestanejava em dizer que era modelo. “Dizia que era modelo. Acreditava nisso e isso me abriu muitas portas. Fiz publicidades de cigarro, desfilei na minha primeira passarela aos 19 anos e trabalhei para a empresa francesa Rhodia no Rio de Janeiro e em São Paulo. Eles produziam grandes desfiles com peças assinadas por estilistas nacionais”, relembra José Favale.
Após os trabalhos como modelo, Moha começou a se envolver com design de jeans, trabalhando como diretor criativo para marcas como Sputnik, Rock&Soda, Carmim e Opera Rock. Esta última, Moha se lembra com carinho: “Jeans era o meu forte. Fiquei na Opera Rock por cinco anos e lembro deste período com satisfação. Meu processo de pesquisas sempre foi bem individual e peculiar. Gosto de sentir os materiais e olhar os tecidos. Minha pesquisa de campo é feita na rua, observando o que as pessoas estão usando em shows, bares, baladas. Os jeans da Opera adentraram exatamente estas ocasiões”.
Quando questionado sobre o motivo da saída da empresa, Moha respira fortemente pelo nariz e confessa, com ar sarcástico, que tentou abrir uma casa noturna chamada Granfino Club com mais dois amigos sócios e que não deu muito certo: “Investi muito dinheiro nesta boate. Ela tinha camarotes, áreas vip, palco para shows, bar e, mesmo com tudo isso, não virou. Talvez a escolha do nome também tenha contribuído para isso... nunca gostei, é pretensioso demais”, conta, meio que deixando para lá e levantando para levar os pires e as xícaras a pia.

A vida de Moha não para. Ele conta, em pé, ter adentrado ainda mais o mercado de jeans e, criando somente peças masculinas, conseguiu trabalhar com importantes marcas argentinas do meio. Ele viajou, viajou mais um pouco e depois retornou ao Brasil. Em paralelo, desenvolveu com a ex-esposa, Fabiana, mãe de seus dois filhos, uma marca chamada T.FA, de malharias trabalhadas.
Retornando a sua cadeira, o criador senta e informa, com empolgação, as mais novas de sua vida: “Fui convidado para trabalhar na Denim City que está sendo aberta aqui no Brasil”. Denim City é uma entidade com sede em Amsterdã que se preocupa com problemáticas ambientais e almeja se associar a profissionais do segmento aqui em território nacional. “A Denim do Brasil vai contar com uma escola que oferta cursos sobre os processos de criação de jeans e uma loja varejista, na qual irei trabalhar como curador”, revela Moha. As obras da Denim City já foram iniciadas numa antiga fábrica da capital paulista, no bairro do Brás, com finalização prevista para novembro de 2019 ou fevereiro de 2020.
Peço para ver algumas das principais peças de Moha e ele tira de seu guarda-roupa algumas de suas camisas preferidas, todas guardadas individualmente em formato de nó, e, calças que projetou para Opera Rock e Carmim, suas marcas de coração. “Guardo minhas camisas assim pois gosto de usa-las amassadas”, afirma Moha, com orgulho. As camisas são incríveis... me pergunto se as estampadas são referências ao The Beach Boys e, as calças, sem dúvidas, possuem modelagens realmente diferenciadas, com cortes que aparentam valorizar as formas do corpo.
Agradeço ao Moha pelo café e me despeço com o sentimento de ter feito um amigo. José Favale é um homem sábio, que não se impõe limites e que está sempre disposto a ouvir o outro. Moha me disse que ao passar pela casa dos 50, dois caminhos surgem à sua frente, o de viver e o de envelhecer. Com toda certeza o estilista optou pelo primeiro, o caminho de viver uma vida saudável, de fé e confiança em si mesmo, com empatia e sabedoria de elefante, unida a perspicácia e independência do tigre.



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